O Movimento Tradicionalista Gaucho sempre foi fortalecido por normas e regulamentos desde sua criação oficial em 1966 como entidade responsável pela filiação de CTGs, Grupos, Piquetes entre outros que foram surgindo com a função de preservar as tradições e manter acesa a chama da mesma. É responsável por diversos eventos e funciona com base em sua Carta de Princípios que em seu artigo 2° diz que o Tradicionalismo deve “Cultuar e difundir a nossa história, nossa formação social, nosso Folclore, enfim, nossa tradição, como substância basilar de nacionalidade.”

Como ser tradicionalista e cultivar as tradições numa sociedade onde a cultura a cada dia que passa vai sendo deixada de lado e dando lugar a movimentos sem conteúdo cultural? Há tempos venho me fazendo esta pergunta e juro, não tenho encontrado respostas. Sou integrante de um Grupo Tradicionalista chamado Ivi maraé, grupo formado em 1998 com o fechamento do grupo de danças do CTG Paulo Serrano. Esta mensagem é um grito de socorro por mim, meus colegas de grupo e tenho certeza que muitos gaúchos vão se refletir no que vou escrever a seguir.

O tradicionalismo deixou de ser um movimento popular quando as comunidades ao redor das entidades deixaram de se importar com a sua essência. Hoje ele não é aceito pela grande massa da população e tão pouco é reconhecido dentro do espaço onde atua. Só é ovacionado por blocos tradicionalistas que se reúnem para dizer “eu sou gaúcho”, mas não agem como tais. Lembro-me quando mais jovem não perdia uma domingueira no CTG Tio Lautério, ia ao Estância da Amizade, no Porteira da Esperança, no Tropeiro das Coxilhas e junto comigo iam muitas pessoas, pois era o nosso momento de encontrar os amigos, tomar um mate e prosear coisas sadias que nos faziam ser felizes.

Hoje muitos grupos como o próprio Ivi Maraé não conseguem sequer um espaço para ensaiar, dependendo do pagamento de aluguel em cidades vizinhas pois em cada canto de São Leopoldo onde há espaço para ensaiar não podemos fazê-lo porque os vizinhos ficam incomodados pelo barulho da música tradicional tocada por nossos músicos. Daí novamente a pergunta – como ser tradicionalista se o público para o qual o espetáculo é feito, não quer assisti-lo?

Tínhamos vários grupos na cidade, grupos bons com pessoas muito influentes no Movimento. Éramos felizes. Posso citar saudoso o Grupo Candeeiro do tempo da Unisinos, o CTG Estância da Amizade com Os Estancieiros, Gaudérios do Vale, Estância do Bom Fim, Ramiro Frota Barcelos todos desativaram suas invernadas sem falar que alguns galpões estão interditados e não podem fazer eventos para se manter. E ainda dizem que o tradicionalismo de São Leopoldo é referência na cultura. Até concordo em partes porque sei valorizar as pessoas que trabalham por este Movimento, sem precisar nomeá-los porque o Movimento é de todos e feito por todos para todos, senão deixa de ter valor.

Fica aqui meu apelo a Prefeitura que invista mais nas entidades tradicionalistas, assim como faz com o carnaval. Hoje somos basicamente duas entidades com invernada adulta (Ivi Maraé e Leão da Serra) que representam o município no Encontro de Artes Tradicionais (ENART) e por coincidência enfrentamos problemas parecidos com a falta de estrutura e os gastos são basicamente pagos por cada um, porque entendemos que se desistirmos seremos mais dois grupos a ficar na lista dos que deixaram lembranças.

Este desabafo é uma forma de mostrar a todos que não está sendo fácil manter este trabalho forte que é feito por nós tradicionalistas. Que enfrentamos muitas dificuldades, desde locomoção para lugares distantes para os ensaios quanto aos custos com indumentária que são bem altos. Reconhecemos o trabalho dos co-irmãos que proporcionam ótimos projetos com suas invernadas mirins, juvenis e xiruas – são muito necessários para manter acesa a chama, são eles que perpetuam nossa cultura, mas reforço, ainda precisamos nos unir em projetos coletivos que invadam o seio da sociedade e os convença que podemos dar um bom destino a nossas crianças quando os ensinamos a dar valor a sua história. Nossos cumprimentos ao CLTG e sua direção e em especial aos amigos do Leão da Serra e Tapera Velha, que nos orgulham pelo trabalho que fazem.

Leandro Lautert